sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

1992 / 2012


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

era, e é, uma vez...


Nessas de mudança, tenho revirado muitas revistas, livros, todo o passado impresso. Até minha certidão de nascimento encontrei - e descobri que meus pais só foram me registrar um mês e seis dias depois, mas enfim. Selecionei alguns livros que eu queria manter e alguns para doar, dentre os mantidos, estava uma publicação lindíssima da Cia. das Letras, Fábulas de Esopo. É um livro incrível com várias histórias e ilustrações antigas. Desconfio que tenha sido a TPM falando mais alto, mas a vontade foi a de guardar o livro e futuramente lê-lo para os meus filhos, antes de dormir. Visualizei toda uma cena onde uma linda criança, envolta em lençóis egípcios, adormecia em doces sonhos enquanto eu, abrindo randomicamente o livro, lhe contava histórias. Risos.
Como em meio ao meu vislumbre eu realmente tinha dado uma folheada randômica, resolvi ler uma fábula, intitulada "A Cigarra e as Formigas". Hm, um clássico!, pensei. Em uma página muito limpa, as serifas indicavam o caminho:

A Cigarra e as Formigas

Num belo dia de inverno as formigas estavam tendo o maior trabalho para secar suas reservas de trigo. Depois de uma chuvarada, os grãos tinham ficado completamente molhados. De repente aparece uma cigarra:
- Por favor, formiguinhas, me dêem um pouco de trigo! Estou com uma fome danada, acho que vou morrer.
As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra os princípios delas, e perguntaram:
- Mas por quê? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno?
- Para falar a verdade, não tive tempo - respondeu a cigarra - Passei o verão cantando!
- Bom... Se você passou o verão cantando, que tal passar o inverno dançando? - disseram as formigas, e voltaram para o trabalho dando risada.

Moral: Os preguiçosos colhem o que merecem.

Véi. Tipo. Cada vez que alguém lê essa história, um unicórnio morre, tá ligado? A cigarra estava prestes a morrer de fome e as formigas, não satisfeitas em não oferecerem um bucadinho pequenininho de trigo, ainda deram uma zuada legal nela. O bicho dizendo que ia morrer de fome - no frio!, importante frisar - e as formigas fazendo piada, rindo e ignorando o problema. Fome, frio, desespero, solidão - risadas. É MUITO CRUEL. Como alguém pode achar que isso é algo que se ensine? Cadê o altruísmo, a filantropia? Se o interesse for o de criar um exército de crianças sem alma, aí beleza, mas sabe?
Minha mãe comentou que, na sua época, já não se lia muito tais fábulas, mas que os pais e os avós dela foram criados assim. Não é à toa que a maioria dos nossos avós são meio reaça. O meu, por exemplo, acha que a profissão que escolhi, design gráfico, não é "trabalho de gente de verdade", sem contar que ele jamais aceitaria um negro na família. Esses preconceitos se diluem com o passar do tempo e das gerações, por mais que ainda existam, acredito que o futuro só tende a ser mais livre, mais compreensivo, mais igualitário. Julgo muito melhor ensinar o valor da solidariedade humana para a geração futura do que os preguiçosos colhem o que merecem, sucker!



domingo, 6 de novembro de 2011

é pau, é pedra

Acho engraçada a forma com que, hoje em dia, falam de bullying como se fosse uma novidade, um problema contemporâneo. Bullying existe, mais precisamente, há uma caralhada de tempo. A diferença é que, agora, ganhou uma expressão em inglês para defini-lo. A fim de comprovar a longa existência de tais atos de violência, dividirei com o grande grupo minha experiência de bullying no colégio.
Acredito que tenha sido ali pela 2ª ou 3ª série quando A descobri. A assim mesmo, em maiúsculo. Ela era linda. Toda excepcional e singular. Minha pedra. Não era exatamente uma pedra, era um concreto em formato meia lua de uns 20cm de diâmetro, todo cravejado de pequenas pedrinhas. TIPO, SABE? Era muito especial. Encontrei-a apoiando a escadinha capenga de madeira que as tias da limpeza usavam para acessar o banheiro feminino pelos fundos. Decidi adotá-la. Levei uma escovinha no dia seguinte e a dei um banho de mangueira, esfregando com cuidado seus mínimos detalhes. Todos os dias ia visitá-la para brincarmos, sempre percebia um detalhe novo na sua superfície, passei até a dar banhos semanais. Até que um dia, meu segredo foi descoberto.
A criança gordinha com nome de tia - que tipo de criança se chama Silvia? -, dona de uma pedra de estimação. Ouk, eu estava praticamente implorando por bullying, mas os acontecimentos que sucederam foram demasiadamente cruéis...
Um dia, Juliana, criança descolada e de nome moderno, me seguiu no recreio e descobriu a minha pedra. Riu pra caramba da minha cara e disse que sumiria com ela. Disse que contaria para a professora e tirariam a pedra dali. Fiquei imaginando minha pedra sozinha, com fome, frio e sem tomar o banho semanal. Me bateu um desespero. Fiz de tudo para que a Juliana não desse um jeito de sumir com a minha pedra, em vão. Decidi, então, escondê-la. Primeiro coloquei-a dentro do escaninho das tias da limpeza. Elas ficaram putas comigo, não era algo exatamente leve para se botar por cima dos produtos de limpeza. Depois, apelei para pontos estratégicos do pátio, sempre sob as mesmas ameaças de delatação. Até que, então, a pedra sumiu.
Nunca soube o que aconteceu, se foi alguém da manutenção que a encontrou no pátio e resolveu removê-la para que não tropeçassem nela ou se foi a professora que, ao saber da história toda, julgou mais salutar sumir com a pedra mesmo. Não sei, só sei que fiquei muito triste. A Juliana ainda comemorou, teve os colhões de rasgar uma folha, dizer que a folha era eu e jogar os pedacinhos em mim. Chuif.
Frequentemente lembro da minha pedra com carinho. Tenho certeza que ela foi peça fundamental no meu desenvolvimento, me ensinando compreensão, responsabilidade e proteção com o menos favorecido. Eu e a Juliana, eventualmente e por ironia do destino, nos tornamos melhores amigas. Brincamos muito de barbie e outros brinquedos considerados normais. Meu único desejo, hoje em dia, é que nenhuma tia da limpeza tenha caído da escadinha.


* N.E.: Tentei reproduzir sua fisionomia no paint. Não ficou uma representação exatamente fiel, mas creio que dê para ter uma idéia da coisa e talz...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ensaio sobre a febre


Fazia uma semana que eu não abria a minha janela. Uma semana que eu só saía da cama para ir ao hospital. Uma semana em que meu braço foi picado cinco vezes, quatro para coleta de sangue e uma para injeção de alívio. Uma semana em que 39° de febre era o meu normal. Uma semana acordando ensopada de suor no meio da noite. Uma semana de quatro diferentes embalagens de remédios cronometrados. Uma semana me perguntando o que eu fiz para merecer isso. Uma semana sem vontade, sem apetite, sem raciocínio. Uma semana com três médicos, sem nenhum saber me dizer o que há de errado comigo. Um acha que é mononucleose, outro acha que pode ser algo nos rins. "Melhor esperar se manifestar mais antes de começarmos um tratamento". Aí, hoje, eu abri a janela.
Tem uma árvore na frente da minha janela. Ela foi cortada há uns anos, e nasceu um galho do toquinho. Ela foi crescendo de novo e eu ainda não a tinha visto na primavera. Aliás, talvez a tivesse visto, mas não a tinha reparado. Hoje, quando abri a janela, ela me pareceu maior, mais verde, mais iluminada. Fiquei ali, parada, me sentindo idiota por me deixar sensibilizar tanto por uma árvore.
Esses dias em casa me fizeram pensar muito - até porque não tinha muito mais o que fazer -, mesmo. Li dois livros, assisti a cinco filmes e às duas temporadas de community. Cheguei a algumas conclusões de coisas que eu vinha fazendo, e da maneira que lidava com certos fatos. Não digo que agora eu vá mudar completamente, não venci um câncer nem nada, mas pensar sobre nós mesmos é bom de vez em quando. É incrível a minha capacidade de solucionar os meus problemas sendo irônica. E isso não faz de mim uma pessoa engraçada, isso só faz de mim uma pessoa meio idiota. Precisei de 40° de febre para me dar conta disso. Precisei, também, de um filme onde a mina anda de bicicleta de pijama enquanto bebe whisky e Whoopi Goldberg é deus para valorizar a vida que levo e as pessoas que estão nela.

Ter ficado doente não foi tão ruim assim. Ouk, foi, foi péssimo na verdade, mas abrindo a janela hoje me dei conta disso. Foi preciso ficar assim para dar um tempo nessa vida vertiginosa e eu pensar em certos aspectos. Foi preciso ver uma árvore verde de novo para eu me dar conta de que é normal ficar doente, assim como é normal se recuperar. Não foi questão de merecer ou não ficar doente, isso acontece. Desejo o mesmo para todos, de verdade. Sem a parte da mononucleose.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

marlborohm shanti

- Tchau!
- Tá indo onde, guria?
- Pra yoga!

Meu pai só revirou os olhos e, cretinamente, deu um sorriso de canto. Não vi a cena, já tinha fechado a porta, mas tenho certeza que ele a fez. Assim como todas as coisas que eu invento de fazer, me animo no começo e lá pelas tantas acabo desistindo. Meus pais já viram isso acontecer algumas vezes, durante 21 anos. Ginástica olímpica, natação, piano, judô, corrida, academia, enfim. O fato é que, agora, senti a extrema necessidade de fazer algo que me ensinasse a respirar melhor e a ter uma postura correta, já que respiro que nem o Chewbacca e tenho a coluna de uma velha reumática. Extrema necessidade de levar uma vida melhor. Coloquei meu outfit ginástica, que consiste em uma regata preta, uma camisetona jogada com o ombro de fora, uma calça furada na bunda e o tênis nike e fuzil. Porque né, a pessoa se exercita em 1980. Na bolsa, as chaves, o cigarro, a identidade, o tri e a carteirinha da unimed, a gente nunca sabe quando a yoga pode nos matar.

Três meninas estavam sentadas em esteiras aguardando a instrutora. Todas em uma postura perfeita e de olhos fechados, concentradas em algo muito maior do que a minha capacidade pudesse compreender. Magras, é claro. Me senti, por um átimo de segundo, UM LIXO. Eu não fazia ideia do que me aguardava. Não sabia como sentar, não sabia o que fazer com as mãos, não sabia se eu deveria estar pensando em algo específico. Peguei uma esteira e me sentei ao fundo, tentei não me fazer percebida. Acho que um animal desastrado de 1,80m que nem eu chama mais atenção quando se esforça para passar desapercebido do que ao natural, mas enfim. Logo, chegou a instrutora. Uma mulher mais velha, aparentemente muito centrada. Ligou o som, uma dessas músicas que a gente ouve em lojas de artigos indianos, começou a calmamente dar instruções e a falar coisas de yoga (sou tão ignorante no assunto que não posso nem remeter a um termo).

Lá pelas tantas, me senti muito confortável ali. Concentrada no que estava fazendo, confiando na respiração e sentindo partes do corpo que nem sabia que eram "sentíveis". Sempre fui bastante flexível, apesar de estar um tanto acima do meu peso ideal. Encostar as mãos nos pés sem dobrar os joelhos e lamber o cotovelo nunca foram um problema para mim. O meu problema é a resistência. Como a coisa consiste muito mais em manter as posições do que em repeti-las, tiveram momentos de grande dificuldade. Por exemplo, uma das meninas estava tirando a posição invertida de letra, ela fazia hábeis movimentos com extrema graciosidade e naturalidade. Eu parecia um tatu-bolinha com o casco virado. Acho que, com o tempo, essas coisas melhoram, o fato é que saí de lá me sentindo muito bem.

A primeira coisa que fiz, claro, foi acender um cigarro. Invoquei a energia através do mantra marlboroooohmmmm. Sei que não deveria dizer isso, mas o cigarro foi ótimo depois da yoga. Deve ter sido aquela respiração toda, meu corpo estava renovado e a fumaça entrou com a plenitude de uma virgindade sendo deturpada. Naquele instante, fiz algo que já me vi fazendo várias vezes nesses 21 anos: "esse é o último". Assim como desisti da ginástica olímpica, da natação, do piano, do judô, da corrida e da academia, agora desistiria do cigarro. Já até perdi a fé, sempre digo que vou parar, jogo a carteira fora, no dia seguinte estou comprando um avulso para então comprar um maço. Mas aí penso, de que adianta eu estar fazendo essa renovação toda se vou continuar me estragando? Se a idéia é viver melhor, então que eu viva melhor na sua totalidade. Espero que dure, espero que eu desista do que me faz mal e siga acreditando no que me faz bem. Mesmo que, para isso, eu precise parecer um tatu-bolinha.

domingo, 19 de junho de 2011

corredor 10

só dei-me conta quando o vi ali, mexendo nas caixas, acocado
roube meu coração, mas não roube o meu supermercado

segunda-feira, 13 de junho de 2011

pra não dizer que não falei das lombadas


Em junho de 2006, trazendo na capa uma Gisele com ares fatigados prometendo um "balanço de sua vida" no recheio, a Vogue Brasil mudava o seu projeto gráfico. Não drasticamente, mas aquela velha história de dar um "ar mais dinâmico" para a revista. Eu sempre apoio essas pinceladas temporais, de acordo com a necessidade. Daniela Falcão é, querendo ou não, a diretora responsável, apesar de ainda assumir o papel de diretora de redação com a saída da Patrícia Carta e a não mais publicação através da Carta Editorial e sim da Globo Condé Nast. Na época, ela definiu o redesenho como uma enfatização de que a Vogue é uma revista de moda, ou seja, era necessário uma reorganização das seções, como a diferenciação de cultura e consumo de moda, por exemplo. O novo desenho entra para deixar essa reorganização mais leve e feminina, com um design mais orgânico. Agora está menos engessada e mais nervosa, disse.

Nessa mesma capa, ainda se referia à Alemanha como o país da copa, os 30 anos do punk eram revisitados e invejava-se os lábios de Angelina Jolie e o corpo de Elle Macpherson. Na época, quem fez o novo projeto gráfico da revista foi a própria diretora de arte, a inglesa Rebecca Mason. Hoje em dia, Mila Waldeck, diretora de arte da Vogue já há alguns anos, capitaneou essa "engenharia nos pilares da revista", como definiu Falcão, com o auxílio da própria Mason, a mesma de cinco anos atrás. Devo frisar que a Rebecca é uma gracinha fashionista de uns trinta e poucos. Na capa da "nova reforma", edição de junho de 2011, temos Raquel Zimmermann vestindo Animale e as chamadas - muito mais chamadas do que há cinco anos: cremes para as idades de 20 à 50, o poder do branco no inverno, os casacos mais desejados da estação e Marta Suplicy, Bia Antony e Kate Middleton. Veja só.

Gostei, e muito, da "nova cara". Não é fácil diagramar uma revista com o volume, a quantidade de informações, o acervo imagético e a assiduidade mensal que a Vogue apresenta. Mesmo assim, eles tiram de letra. Acho engraçado como as pessoas gostam de escorraçar a Vogue por ser elitista, por tratar a moda fora da realidade, por ser medíocre e superficial, por já ter virado mainstream. Acho engraçado mesmo. Sou defensora com unhas e dentes da Vogue. Reconheço que há uma série de revistas, blogs e designers interessantíssimos por aí que podem estar sendo atropelados de alguma forma, mas jamais se pode tirar o mérito. É uma revista de arte, de contemporaneidade, com boas matérias, editoriais, saudosismos e o que está em cena atualmente. É o que Anna Dello Russo já afirmou há tempos: ninguém compra uma Vogue para ver jeans e camiseta. Ninguém vai a uma exposição de arte para ver o que nós mesmos podemos rabiscar com uma bic.

Enfim, escrevi tudo isso para dizer: Vogue, sualinda, é isso aí! A tipografia fluída, as colunas, os créditos, as legendas, as informações dos produtos, até a cursiva - e olha que eu sou sempre a primeira a levantar a bandeira contra as cursivas -, até a cursiva ficou genial! Sou puxa-saco sim, me deixa. Mas ó, o mais legal, disparado e sem sombra de dúvida, foi a lombada. Que lombada maravilhosa! Quem empilha/enfileira revistas, sabe o valor de uma lombada. Que lombada bem linda...


N.E.: Um amigo comentou que achou estranho o logotipo estar em "sans serif" na lombada. Queria afirmar que eles não mudaram o logotipo, apenas tiveram os colhões de alterá-lo só ali como recurso gráfico, em prol de melhores leiturabilidade e visibilidade. Para isso, também tiraram o itálico, colocaram o "n°" em caixa alta e mudaram completamente a tipografia, os pontos e a proporção.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Duas histórias ótimas (e reais!) de amigos meus, já que eu cansei de estar sempre tirando sarro comigo mesma nesse blog

(Antes de mais nada, cansei também de usar itálico em citações em inglês, gente. A partir de agora vou me aventurar, viver perigosamente, ESSE É O MEU JEITÃO DE ESCRITA!)

1.

Tenho uma amiga. O nome dela é Dini* (*os nomes serão drasticamente alterados a fim de preservar a identidade dos envolvidos). Na casa da Dini há um largo acervo de livros de culinária para microondas. Sério, são alguns vários fascículos só com receitas práticas de micro - ou nem tão práticas assim. Não lembro o nome, mas é algo tipo "você e seu microondas - viva com praticidade e harmonia" (just made that up). E é incrível a técnica e a habilidade de Dini diante seu gadget culinário. Ela poderia vender microondas na polishop como algo completamente inovador - sem alterar nada no eletrodoméstico - e ficaria milionária. Mas enfim, o caso é que com toda essa exímia habilidade na pronta-alimentação, Dini não é muito, digamos assim, versada nos demais campos da gastronomia.
Um dia, segundo a narrativa da própria, ela ficou cheia de vontade de comer cenoura e beterraba. Lá foi a moça, rumo ao supermercado comprar as tais da cenoura e da beterraba - itens dos quais ela não estava muito habituada. Comprou, pesou, pagou, até aí tudo bem. Chegou em casa e foi deliciar-se com seus quitutes quando notou, sorrateiramente, que eles estavam duros. Lógico. Putz, que azar, comprei uma cenoura e uma beterraba estragadas! - pensou. Nossa, mais lógico ainda. Resolveu ligar para a mãe dela.
- Mãe, comprei uma cenoura e uma beterraba, mas elas estão duras demais, acho que estão estragadas!
- Estão cruas, isso sim! Tem que cozinhar antes de comer.
- Aaaahhh...
Dini não teve dúvidas: encheu um tupperware de água, colocou boiando ali a cenoura e a beterraba e meteu no micro. Não demorou muito até ouvir algo que soava como uma pequena implosão. Ela diz que o microondas é roxo por dentro até hoje.

2.

Na época de colégio ainda, uma das atividades bacanas do nosso "grupinho" era reunirmos para ir ao cinema. Tenho dois amigos que são praticamente vizinhos, a Juliane* e o Guilhermo*. No final de uma dessas sessões, o Gui ofereceu carona pra Ju, já que a mãe dele viria buscá-lo. Ele pretendia ainda comprar um tênis e a mãe dele queria passar no supermercado, a Ju disse que tudo bem, iria junto com eles. Esperaram um pouco até que a mãe e a avó do Gui chegaram. Foram, os quatro, até o supermercado, onde a mãe escolhia os itens, a avó acompanhava, o Gui ia dando opiniões e a Ju apenas os seguia. O Gui foi carregando as compras, enquanto sua mãe sugeriu que eles a esperassem sentados em um banco, pois a avó já deveria estar cansada, enquanto ela ia buscar o modelo do tênis que o Gui já havia escolhido. A avó sentou no banco vazio, o Gui largou as compras no chão e a Ju ficou ali, parada, junto com eles. Nenhum dos três havia trocando uma palavra até então. O silêncio foi quebrado pela avó.
- Pssshh... Psssh...! Guilhermo...
- Quê, vó?
- Senta aqui com a vó no banco.
- Não, vó, tô a fim de ficar de pé.
- Psshhh, Guilhermo, senta aqui.
- Não quero, vó.
- Mas eu quero falar uma coisa contigo.
Quando Guilhermo finalmente sentou, a avó inclinou-se para o seu lado, fez uma conchinha com as mãos e cochichou no ouvido do neto:
- Abre o olho com as compras, Gui, que essa guria tá nos perseguindo desde o cinema!