Eis então que, com o lançamento da nova linha de produtos da firma onde trabalho, seria necessário um avental com a logotipia do bule, para que o demonstrador do funcionamento do artefato vestisse. É uma suma bem grande que envolve alguns segredos industriais, mas como não sou muito chegada nessa parada de segredinho, é um lance que, enfim, passa café. Ia precisar de um magrão usando um avental que tivesse bordado, em dourado, o logotipo da linha. Claro, por que não?, me incubiram de tal tarefa. "Silvia, vai no centro, compra um avental preto e leva-o pra ser bordado, bota aí num pendrive a arte e vai chamando o táxi do convênio enquanto eu pego os endereços dos locais aqui, tá?" Tá. Dar uma banda no centro em pleno horário de trabalho? Meu trampo, seulindo.
Adorava a época em que eu trabalhava no centro. Os prédios, as pessoas, a pressa, o vuco-vuco todo. Adoro o centro de Porto Alegre, me sinto em casa. Fui despacito, com o cigarrinho queimando devagar, até a tal galeria onde poderia fazer o bordado do avental recém comprado. Entrei, a loja era pequenininha, haviam duas senhoras carolas operando máquinas eletrônicas de bordar, o antigo e o atual convivendo em harmonia em uns 4x6m. "Oi, bom dia!", disse eu, sempre com essa péssima mania de ser muito simpática com estranhos. Me olharam de cima a baixo, olharam as roupas, a maquiagem de amy winehouse e o alargador de dois dígitos. Começamos mal.
- Bom dia, no que posso te ajudar?
- Então, eu preciso bordar uma arte nesse avental preto.
- Tem ela aí?
- Sim, aqui no pendrive.
Aí começou uma breve sessão de substituir enter por clics e descer o cursor sem usar o scroll, mas beleza. Ela abriu a arte, que estava em .eps, e olhou bem feio.
- Tá, e é a primeira vez que tu vais fazer essa arte?
- É.
- Eu preciso dela em pontos de bordado.
- Oi?
- Pontos de bordado.
Tudo bem que não entendo nada de bordado, e me orgulho deveras disso, mas de extensões de arquivo eu entendo. O arquivo estava em vetor, se é possível imprimir algo do tamanho da via láctea sem perder a resolução, então deveria haver alguma maneira de exportar o arquivo para uma extensão que a tal máquina de bordar lesse. Tentei traduzir isso em palavras para a senhora.
- Sim, mas ela está em vetor. A máquina lê quais extensões?
- Pontos de bordado.
- Sim, isso eu entendi, mas qual é o nome dessa extensão? Talvez o programa exporte para ela, se a senhora me dissesse o nome, eu poderia ver s...
- Pontos de bordado.
Senti uma veia saltar no pescoço. "Calma, Silvia. Não tem porquê".
- Ok, e como faço para exportar para essa extensão?
- Como faz para fazer isso virar pontos de bordado?- Isso.
- Tem uma mulher em Sapucaia que faz. Ela leva dois dias e cobra vinte reais.
- Ah, ouk (wait... what?). E tem como eu falar com ela agora?
Nesse instante rolou um momento de tensão. Acredito que a senhora carola tenha achado que, em algum acorde de minha voz, faltei com respeito. Duvidei de suas palavras. Cuspi em seu ofício.
- Tem, mocinha (!). Vou ligar pra ela e tu mesma falas então, e ela tira tuas dúvidas.
Gelei. Mas enfim, se a mulher essa de Sapucaia trabalha com a arte de converter arquivos, total leiga ela não seria. Mero engano meu.
- Alô, Katchússia (sem zueira, juro)? Tem uma guria aqui na loja que não entende de arte final querendo falar contigo, explica pra ela como são os pontos de bordado.
"Não entende de arte final". Respirei fundo pela boca. Soltei pelo nariz. É, eu estou já na terceira cadeira de produção gráfica na faculdade, isso soma um freaking ano e meio estudando sobre arte final, e a senhora que tem uma lojinha de bordado no centro vem dizer que eu NÃO ENTENDO DE ARTE FINAL.
- Alô, Katchússia?
- AARÔ??
Ai, meldels. Força.
- Oi, então, me chamo Silvia, queria saber qual a extensão de arquivo que a máquina lê, se não tem como eu mesma exportar aqui.
- É PONTOS DE BORDADO.
Segurei muito, mas muito, um "AH VÁ! É mêrmo? Cê jura?!".
- Sim, isso eu já entendi, mas queria saber qual o nome da extensão, pra eu ver se não tem no programa.
- É DST!
- Quê?- DST!
- Tipo... Sério? D-S-T?
- É! DST!
Fucking kidding me. Minha cabeça pensou "DST é o que tu tem, sua vadia, me diz logo como eu posso fazer pra esta merda de máquina ler esta porra deste arquivo e pára de gritar nesta pica mole deste telefone, antes que eu me esqueça", mas minha voz filtrou um:
- Ah. Ouk.
Desliguei. Entreguei o telefone pra senhora carola, peguei o avental preto de cima do balcão e saí sem falar nada. Eu precisaria daquilo para o dia seguinte, por mais que mandasse a arte para que a sapucaiense transformasse-a em uma doença sexualmente transmissível, de nada me adiantaria, tendo em vista que ela só faria aquilo em um prazo de dois dias. Fora que se eu abrisse a boca para dizer algo à senhora carola, não seria "tchau, obrigada", seria "LEIGA É TU! EU TE ODEIO!". Na verdade, qualquer lugar onde as pessoas te tratam mal não é um lugar onde devas voltar.
No fim das contas, acabei conseguindo um local onde não apenas fariam no dia, como me explicaram que é necessária a confecção de uma matriz para a máquina ler, e que essa matriz, de fato, possui a extensão .dst. Não souberam me explicar o que .dst significa, mas como a máquina possui um número de fontes tipográficas e o que eu queria bordar era um logotipo, era necessária a matriz, para que não houvesse alteração de fonte e a logotipia não se descaracterizasse. Eles mesmos fariam a matriz ali, com o arquivo em .eps, sem que este tivesse que viajar até Sapucaia. Moral da história: não desmereça o conhecimento de um designer, você vai sair perdendo dinheiro.
sábado, 9 de outubro de 2010
.dst
domingo, 5 de setembro de 2010
O Pecado (e os sapos) Mora ao Lado
Estava há tempos para escrever sobre, mas só agora resolvi sentar e compor a narrativa devido a uma "sinfonia motivacional", e não há nada de metafórico nisso. Senta que lá vem a história.
O prédio onde moro é pequeno, poucos apartamentos. Estamos cercados de casas, o que faz com que todos os nossos vizinhos dos arredores sejam, hã, bem, casas. De um lado do prédio, há uma casa cujo a fachada é um castelo, com direito a pé direito alto e "torrezinhas" nas laterais. Nos fundos, poodles, piscina térmica e janelas sempre fechadas, como se ninguém morasse full time ali. Há rumores envolvendo rancores familiares e suicídio. Esses são os vizinhos normais. Do outro lado do prédio, os meus favoritos: O Casal de Uruguaios. Sim, merecem capitulares.
Não há ainda confirmação de que o Casal de Uruguaios seja, de fato, uruguaio, mas aqui em casa criamos a teoria com base no sotaque. O Casal ouve, e canta, muito Buena Vista Social Club e Manu Chao, o que não nos ajuda nas referências, mas enfim. Ambos devem ter em torno de, no mínimo, 50 anos. Têm cachorros no pátio e uma bela casinha nessa pacata rua. Quase nada do que os vi fazendo nesses 7 anos morando aqui seria considerado "normal". Mas também, quem sou eu para dizer alguma coisa.
Logo que nos mudamos, ouvíamos-os discutindo em espanhol, mas como nossos vizinhos de porta são melhores em termos de brigas (certa vez, quebraram um quadro aqui de casa só com um fechar brusco de porta. porta deles. quadro aqui de casa. reflitam.), não dávamos muita bola. Começamos a notá-los mais quando, já há alguns anos, resolveram transformar sua piscina em uma espécie de lago artificial. Plantas de vários tipos boiando, sapos coachando, musgo nas beiras, tenho a impressão de já ter visto carpas laranjas em meio a água turva e uma nuvem de mosquitos da dengue fazendo uma pool party. E, claro, eles freaking nadando naquilo.
Acredito que sejam artistas plásticos, com ênfase em fazer vitrais. Me explico: no pátio da frente dá para ver, entre as trepadeiras do portão, um anjo de vidro com umas esculturas ao redor. No pátio dos fundos, onde tem a piscina, mais esculturas de vidro e, bem aos fundos, uma espécie de atelier. A parte de trás do atelier é toda envidraçada e dá vista direta para o meu quarto. Ambos no mesmo andar, bem próximos, e na diagonal. Nem a minha janela, muito menos a deles, é pequena, o que dá um tom de privacidade zero para a brincadeira. Atelier, esculturas de vidro e piscinão de Ramos? Artistas plásticos, com ênfase em fazer vitrais.
Nessas de ter a piscina e várias plantas e coisa e talz, eles passam boa parte do tempo no jardim, dando uma nadadinha, trocando palavras em espanhol, fazendo obras que envolvam vidro e regando plantas. Pelados. Foi bem engraçada a reação horrorizada da moça que trabalha aqui em casa, durante seu primeiro dia. "Dona L.! Dona L.! Os vizinhos! Tão pelados no pátio!". Ela evitou a área de serviço, que dá vista para o pátio deles, o quanto pôde. Nossa reação inicial também não foi muito receptiva, mas agora tá tudo tranquilo, tudo em casa. Isso é o de menos.
Não é sempre que estão no Atelier, e também não é sempre que estou no meu quarto, principalmente durante o dia. Nessa linha de raciocínio, um dia vim em casa no horário de almoço e eles transavam loucamente na frente da janela do atelier. Rapidamente saí do quarto, parecia até que era na minha cama. A história ainda se repetiu algumas vezes, hoje em dia até abano e faço um "joinha". Já os encontramos em um restaurante vegetariano, e minha mãe não os reconheceu; cumprimentou de volta com estranheza, retornou a nossa mesa e, após eu dizer que eram os vizinhos, limitou-se a "ah, é! não reconheci vestidos".
Agora, em meados de primavera, os dias vão ficando mais coloridos e quentes, as janelas ficam mais abertas e o clima parece mais receptivo. O Casal de Uruguaios costuma fazer luais em volta da piscina, com violão, parentes e/ou amigos que os visitam. As rãs, as pererecas e os sapos fazem sinfonias até de madrugada em algumas noites, principalmente nas que antecedem chuva, tirando meu sono e me dando vontade de escrever. Os Uruguaios cantam seu Buena Vista Social Club e seu Manu Chao em um tom alcoólicamente bonito. No fundo, a verdade é que eu os invejo. A verdade é que eu quero envelhecer assim também.
O prédio onde moro é pequeno, poucos apartamentos. Estamos cercados de casas, o que faz com que todos os nossos vizinhos dos arredores sejam, hã, bem, casas. De um lado do prédio, há uma casa cujo a fachada é um castelo, com direito a pé direito alto e "torrezinhas" nas laterais. Nos fundos, poodles, piscina térmica e janelas sempre fechadas, como se ninguém morasse full time ali. Há rumores envolvendo rancores familiares e suicídio. Esses são os vizinhos normais. Do outro lado do prédio, os meus favoritos: O Casal de Uruguaios. Sim, merecem capitulares.
Não há ainda confirmação de que o Casal de Uruguaios seja, de fato, uruguaio, mas aqui em casa criamos a teoria com base no sotaque. O Casal ouve, e canta, muito Buena Vista Social Club e Manu Chao, o que não nos ajuda nas referências, mas enfim. Ambos devem ter em torno de, no mínimo, 50 anos. Têm cachorros no pátio e uma bela casinha nessa pacata rua. Quase nada do que os vi fazendo nesses 7 anos morando aqui seria considerado "normal". Mas também, quem sou eu para dizer alguma coisa.
Logo que nos mudamos, ouvíamos-os discutindo em espanhol, mas como nossos vizinhos de porta são melhores em termos de brigas (certa vez, quebraram um quadro aqui de casa só com um fechar brusco de porta. porta deles. quadro aqui de casa. reflitam.), não dávamos muita bola. Começamos a notá-los mais quando, já há alguns anos, resolveram transformar sua piscina em uma espécie de lago artificial. Plantas de vários tipos boiando, sapos coachando, musgo nas beiras, tenho a impressão de já ter visto carpas laranjas em meio a água turva e uma nuvem de mosquitos da dengue fazendo uma pool party. E, claro, eles freaking nadando naquilo.
Acredito que sejam artistas plásticos, com ênfase em fazer vitrais. Me explico: no pátio da frente dá para ver, entre as trepadeiras do portão, um anjo de vidro com umas esculturas ao redor. No pátio dos fundos, onde tem a piscina, mais esculturas de vidro e, bem aos fundos, uma espécie de atelier. A parte de trás do atelier é toda envidraçada e dá vista direta para o meu quarto. Ambos no mesmo andar, bem próximos, e na diagonal. Nem a minha janela, muito menos a deles, é pequena, o que dá um tom de privacidade zero para a brincadeira. Atelier, esculturas de vidro e piscinão de Ramos? Artistas plásticos, com ênfase em fazer vitrais.
Nessas de ter a piscina e várias plantas e coisa e talz, eles passam boa parte do tempo no jardim, dando uma nadadinha, trocando palavras em espanhol, fazendo obras que envolvam vidro e regando plantas. Pelados. Foi bem engraçada a reação horrorizada da moça que trabalha aqui em casa, durante seu primeiro dia. "Dona L.! Dona L.! Os vizinhos! Tão pelados no pátio!". Ela evitou a área de serviço, que dá vista para o pátio deles, o quanto pôde. Nossa reação inicial também não foi muito receptiva, mas agora tá tudo tranquilo, tudo em casa. Isso é o de menos.
Não é sempre que estão no Atelier, e também não é sempre que estou no meu quarto, principalmente durante o dia. Nessa linha de raciocínio, um dia vim em casa no horário de almoço e eles transavam loucamente na frente da janela do atelier. Rapidamente saí do quarto, parecia até que era na minha cama. A história ainda se repetiu algumas vezes, hoje em dia até abano e faço um "joinha". Já os encontramos em um restaurante vegetariano, e minha mãe não os reconheceu; cumprimentou de volta com estranheza, retornou a nossa mesa e, após eu dizer que eram os vizinhos, limitou-se a "ah, é! não reconheci vestidos".
Agora, em meados de primavera, os dias vão ficando mais coloridos e quentes, as janelas ficam mais abertas e o clima parece mais receptivo. O Casal de Uruguaios costuma fazer luais em volta da piscina, com violão, parentes e/ou amigos que os visitam. As rãs, as pererecas e os sapos fazem sinfonias até de madrugada em algumas noites, principalmente nas que antecedem chuva, tirando meu sono e me dando vontade de escrever. Os Uruguaios cantam seu Buena Vista Social Club e seu Manu Chao em um tom alcoólicamente bonito. No fundo, a verdade é que eu os invejo. A verdade é que eu quero envelhecer assim também.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
uma certa angústia
aqueles quentes finais de dia em garopaba, jogando taco no quintal da casa do miguel. aquela semana vertiginosa em buenos aires, em um começo de semestre qualquer, conhecendo exatamente quem eu mais queria conhecer. aqueles pedalinhos da beira do guaíba, para rir e pedalar a orla toda. aquelas noites no atelier, sem ainda muitas perspectivas, mas com muita vontade. as manhãs na rua torta da santa terezinha, quando a vida era mais tranquila e os amigos antigos, mais presentes. aquelas tardes gostosas no siriu, onde os mosquitos não perdoam, o bandolim chora e o tempo não passa. os momentos ímpares de santiago, a cidade dos contrastes. os poucos anos em brasília, que pouco recordo mas muito sinto. respirar o ar e amanhecer no bom fim, fosse com quem fosse. as caminhadas intermináveis com os guris, entre as praias secretas dos bicuíras. a ciclovia do marinha, que guarda apenas para si tudo o que aconteceu lá. o cais do porto, que também é cúmplice. aqueles dias em curitiba, onde já não distinguia mais o final de um e o começo de outro, onde tudo era perfeito e embalado apenas pelo momento. aquele menino que conheci no último dia do evento. a bienal dentro dos containers. as tardes de dúvidas, descobertas e filmes experimentais, com as pessoas certas, fosse no bar do alberto, fosse no nosso bar. aquele almoço na praça da alfândega, com bigode e taça de champagne. a fumaça do cigarro que parece ter uma silhueta especial quando tragada no odeon. os dias bagunçados de xangrilá, varando madrugadas em tubos de concreto. o dia onde, logo pela manhã, tudo perdeu sua importância e o caminho da rotina foi desviado para a rodoviária, por puro impulso, saudades e amor. o trampo no décimo oitavo andar do centro, com um ponto de vista distante, distante. os primeiros meses após a compra do apartamento na henrique dias. aqueles dias, naquele momento muito especial, quando deixamos de ser irmãs para virarmos amigas, rindo na praça cagancha. aquela noite, depois do teatro, sentados no monumento da praça marechal deodoro. as conversas das tardes de redenção, com infinitas companhias, mas sempre com mate. a vida parece ir se compondo aos poucos, da maneira que dá.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Diários de Marlboro Light
Eis então que, levando a sério minhas resoluções, resolvi parar de fumar para virar uma velha linda da pele de pêssego e do aroma de flores do campo. Tal qual aquele que está consciente de possuir uma doença terminal, comprei meu último maço sabendo que seria o último. No começo foi divertido, foi normal. Aos poucos, reparei uma folga na caixinha. Quando cabia o isqueiro, os cigarros e ainda sobrava espaço, bateu um pequeno pânico. Hoje, amanheci com dois remanescentes. O Bic azul petróleo parecia me perguntar “e agora?”. E agora? Agora inicia-se a nova jornada, intitulada “Diários de Marlboro Light”, com o subtítulo “do fumo ao fuuuuu...!”.
A manhã foi tranquila, apesar de eu ter sapateado bastante enquanto esperava o ônibus. A vontade veio, e trouxe reforços, na hora do almoço. Almocei com M., no Barra. Tranquilo. Voltando do Barra para a firma, 13h02, chega o momento do penúltimo cigarro. Abri a caixinha, ele me olhou tristonho. O clima era de tristeza no Bic também, cujo o fogo veio falhado. Acendi, dei aquela tragada deliciosa e parei um pouquinho. Ouk, penúltimo. Vou guardar o último para a noite e, a partir de amanhã, vamos ver o que se faz. Vinha andando pela “peatonal”, no estacionamento de trás, ou seja, pouquíssimas pessoas em um raio de alguns quilômetros. Caminhei devagar, lembrei do sonho que tive a noite. Muito bom, por sinal. A brisa batia devagarzinho, fluindo junto com a fumaça. Eu fumo no ritmo em que eu penso.
Traguei mais uma vez, agora se aproximava da metade já, e, no momento de dar o peteleco a fim de se livrar da cinza, o cigarro foi ao chão. Metade do cigarro ainda, sem contar com o filtro. O penúltimo cigarro da minha vida foi, quase inteiro, ao chão. Minha válvula de escape já há alguns anos, agora em seu fim, de encontro à brita. Nos últimos dias tenho previsto como serão os próximos, e não serão bonitos. Enquanto o cigarro caía, eu via no futuro a angústia, o pavor, o horror, o terror, o pânico, os povos em batalhas intermináveis pela talassocracia nas limitadas faixas de terra, mortes no arquipélago, desesperados atravessando o mar Egeu ao lado de seus últimos familiares. Ele caiu em câmera lenta. Como se houvesse um tsunami surgindo entre os altos prédios do Cristal e dependesse de mim, do meu grito, salvar a vida dos transeuntes desavisados que ainda não haviam percebido o que estava por vir, implodi e acabou escapando, em alto e bom tom, “NÃÃÃÃOOOOoooooo!”. Catei o cigarro, soprei, fumei e olhei ao redor. Fazer fotos com analógica nos dá uma noção melhor de distância em metros, em aproximadamente três metros a minha frente se encontrava um senhor de seus 40 anos, cabelo dividido ao meio, terno, gravata, pasta de executivo e um sorriso, uma cara de surpreso. Eu devo ter gritado alto. Me admiro não ter dado um peixinho no chão para salvar o cigarro. O homem estava parado, me olhou fundo, ainda surpreso, e riu. Eu comecei a rir junto. Se aproximou, deu um tapinha amistoso no meu ombro e seguiu, com sua vibe businesseman, rindo. Eu segui meu caminho, rindo também. Rindo da situação. Rindo de desespero.
A manhã foi tranquila, apesar de eu ter sapateado bastante enquanto esperava o ônibus. A vontade veio, e trouxe reforços, na hora do almoço. Almocei com M., no Barra. Tranquilo. Voltando do Barra para a firma, 13h02, chega o momento do penúltimo cigarro. Abri a caixinha, ele me olhou tristonho. O clima era de tristeza no Bic também, cujo o fogo veio falhado. Acendi, dei aquela tragada deliciosa e parei um pouquinho. Ouk, penúltimo. Vou guardar o último para a noite e, a partir de amanhã, vamos ver o que se faz. Vinha andando pela “peatonal”, no estacionamento de trás, ou seja, pouquíssimas pessoas em um raio de alguns quilômetros. Caminhei devagar, lembrei do sonho que tive a noite. Muito bom, por sinal. A brisa batia devagarzinho, fluindo junto com a fumaça. Eu fumo no ritmo em que eu penso.
Traguei mais uma vez, agora se aproximava da metade já, e, no momento de dar o peteleco a fim de se livrar da cinza, o cigarro foi ao chão. Metade do cigarro ainda, sem contar com o filtro. O penúltimo cigarro da minha vida foi, quase inteiro, ao chão. Minha válvula de escape já há alguns anos, agora em seu fim, de encontro à brita. Nos últimos dias tenho previsto como serão os próximos, e não serão bonitos. Enquanto o cigarro caía, eu via no futuro a angústia, o pavor, o horror, o terror, o pânico, os povos em batalhas intermináveis pela talassocracia nas limitadas faixas de terra, mortes no arquipélago, desesperados atravessando o mar Egeu ao lado de seus últimos familiares. Ele caiu em câmera lenta. Como se houvesse um tsunami surgindo entre os altos prédios do Cristal e dependesse de mim, do meu grito, salvar a vida dos transeuntes desavisados que ainda não haviam percebido o que estava por vir, implodi e acabou escapando, em alto e bom tom, “NÃÃÃÃOOOOoooooo!”. Catei o cigarro, soprei, fumei e olhei ao redor. Fazer fotos com analógica nos dá uma noção melhor de distância em metros, em aproximadamente três metros a minha frente se encontrava um senhor de seus 40 anos, cabelo dividido ao meio, terno, gravata, pasta de executivo e um sorriso, uma cara de surpreso. Eu devo ter gritado alto. Me admiro não ter dado um peixinho no chão para salvar o cigarro. O homem estava parado, me olhou fundo, ainda surpreso, e riu. Eu comecei a rir junto. Se aproximou, deu um tapinha amistoso no meu ombro e seguiu, com sua vibe businesseman, rindo. Eu segui meu caminho, rindo também. Rindo da situação. Rindo de desespero.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Enchendo o tanque e humilhando
segunda-feira, 24 de maio de 2010
THE QUICK BROWN FOX JUMPS OVER THE LAZY DOG

Quando Gutenberg deu início a possibilidade de imprimir um livro tipográfico, lá pelo século XV, com seus tipos feitos de chumbo, antimônio e estanho, o conhecimento disponível à humanidade dava um largo passo. A chance de um livro não depender mais da falta de pressa dos escribas abria um caminho à disseminação do saber, fosse este qual fosse, que evolui até hoje nas wikipédias da vida. Porém com o tempo e com uma maquinaria mais sofisticada, os tipos móveis foram caíndo em desuso. Fábricas e fábricas foram fechando, deixando seus tipos para colecionadores e afins. Hoje, no Brasil, acredito eu, apenas a Gráfica Fidalga ainda está na ativa. O que é uma pena. A impressão em tipos móveis é barata, não polui (ouk, se pegarmos na raiz das coisas, polui bem menos), elegante e diferente de tudo o que se vê por aí. É ímpar, é único. Cada cartaz possui um traço característico só seu, embora todos possuam a mesma impressão. E é exatamente neste lamento que eu incentivo a todos e todas que façamos uma retomada deste austero e rudimentar sistema de impressão. Façamos tipos móveis! Abramos, cada um, uma Gráfica de Tipos Móveis em sua própria casa! Dominemos o mundo com tinta tipográfica e papel jornal!... Não? Só eu? Ouk, enfim. Para quem interessar, segue abaixo um passo-a-passo bem simples de como podemos fazer tipos móveis de uma maneira prática e barata.
O que precisa:- Goivas (o conjunto com seis está à venda na Koralle (José Bonifácio, 95) por R$29)
- Borrachas (os tipos que eu apresento aqui foram feitos com borracha, mas podem ser feitos também com madeira ou linólio)
- Fósforos
- Estilete
- Nanquim (recomendo, para quem estiver mais legal de grana do que eu, comprar Tinta Tipográfica, um ponte de 1L de tinta preta sai em torno de 30 reais e dura uma eternidade)
- Papel Vegetal
- Lápis (4B ou 6B, de preferência)
- Pincel Pequeno
Então. Escolha uma fonte tipográfica de sua preferência e reserve. No caso aqui, eu usei um borrachão da mercur, mas recomendo uma borracha que não esfarele, o tipo fica talhado mais precisamente em uma dessas. Com o borrachão da mercur dá para fazer 4 tipos: corte ela ao meio na vertical e depois divida cada parte em duas fatias. É nessa hora que entra o estilete e os fósforos: esquente o estilete e corte a borracha, assim, o corte fica mais liso. É bem importante também que as fatias sejam cortadas na mesma altura para que, na hora de fazer a composição dos tipos lado-a-lado, os tipos saiam impressos corretamente. O espacejamento entre letras é feito a partir do corte lateral da borracha. Recomendo que o kerning seja a última coisa a ser feita.

No caso do borrachão da mercur, se cortado da forma que eu descrevi acima, teremos 4 fatias de borracha, cada uma com a superfície de 35x50mm. Com esta medida, faça no computador retângulos e coloque a fonte tipográfica de sua escolha dentro deles. Eu usei a Frutiger LT Std 45 Light, com 104pts. Imprima o PDF (não esqueça de marcar a opção de tamanho original na hora de imprimir, sempre se perde uns 5mm em "adaptar para a folha"). Com os tipos impressos, corte um pedaço de papel vegetal e desenhe por cima, na parte fosca, contornando a letra. É bacana também desenhar as arestas do retângulo, para que, na hora de colocar em cima da borracha, a letra fique bem centralizada.
Pressione o lado desenhado em cima da borracha. Pode usar o cabo do lápis para fazer pressão. Lembrando que no exemplo eu usei as letras "A" e "D", que funcionam de qualquer lado (no caso do "D", é só virar horizontalmente), mas se a letra feita for um "S", espelhe-a na hora de imprimir do computador, porque quando ela for impressa pelo tipo móvel no papel, ficará virada.
Agora, como já diria meu avô sobre seus bichinhos talhados em madeira, tudo o que não for porco ou cavalo vai fora: tudo o que não for a letra, deve ser talhado. Recomendo as goivas "C" e "V" pequenas para talhar, são mais precisas nos detalhes. Para talhar curvas, melhor a goiva "C". Se o tipo for de hastes retas, como o "A" do exemplo, utilize a goiva "V" pequena e o contorne, levando a goiva sempre até o fim. Assim, as chances de o tipo saírem bem retinho são maiores.
Beleza, temos o tipo já. Agora, vamos para a tinta. Quem for rico milionário e usar tinta tipográfica, é o seguinte: use bem pouca, coloque numa superfície lisa (de preferência um metal ou uma pedra) e tenha em mãos um rolo de plástico, desses mais macios. Amacie bem a tinta com o rolo, não deixe formar montinhos. Como a tinta é dura, força no braço, meu amigo! Agora se você estiver bem capenga que nem eu, pegue seu nanquim que venceu em 2009 e bote em uma base, espalhe-o bem com um pincel para que não acumule tinta.Pressione o tipo móvel contra a tinta espalhada. Tchãrãn, aí está. Agora, coloque-o sobre uma base lisa e pegue o suporte onde será feita a impressão. Recomendo papel jornal, é muito barato e é o que melhor absorve. Pressione o papel jornal sobre o tipo, pode usar uma borracha e fazer um "sanduíche" para auxiliar na pressão.

Puxe o papel e, rufem os tambores, está feita a impressão! Com os tipos lado-a-lado, fica mais fácil de calcular um kerning bacana. Eu faço o kerning de olho, mas se alguém for pilhado o suficiente de dividir a altura do A por 35, recomendo que o faça na hora de imprimir do computador mesmo.
O tipo de borracha pode durar umas 100 impressões para mais, não sei ao certo. Talvez dure 1000, talvez não. Nenhum meu chegou ao seu prazo de validade ainda. Porém, claro, os de madeira e linólio duram mais, sendo a única questão é que a madeira é mais difícil de talhar e o linólio é mais difícil de conseguir e moldar. Se alguém tiver alguma dúvida ou uma sugestão, só me mandar um emeio: silpont@hotmail.com.Bueno, that's all, folks.
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