quinta-feira, 9 de junho de 2011

avoid

Sou dessas pessoas que gosta de fazer tudo ao mesmo tempo. Nessas de fazer tudo ao mesmo tempo, acabo não fazendo nada. Esses tempos li em algum lugar sobre a facilidade que as pessoas com déficit de atenção têm em trocar uma atividade por outra. Me identifico muito com essa descrição, minha própria narrativa literária aqui do blog condiz com isso. Escovo os dentes pela manhã já procurando o cartão do ônibus na bolsa. Aí, claro, tento pagar o ônibus com o Panvel Fidelidade e escovo os dentes com Bozzano. Esse pensamento vanguardista atrapalha bastante. A intenção geralmente é boa, mas meu lado desatento e meu lado burro são regiões limítrofes do meu córtex cerebral.
Aos que ainda não compreenderam, exemplifico - expondo a mim mesma: Lá estava eu, toda gatinha, fumando um cigarro na entrada de um shopping da capital. Havia um pequeno grupo de pessoas interessantíssimas ali, fumando também e trocando uma idéia. Dois guris e uma guria. Não ouvia o que eles estavam falando, eu estava com os fones, mas com certeza era algo atraentemente palpitante. Não há dúvidas quanto a isso. A menina estava com um vestido boudoir e um terno compridinho, os garotos tinham o cabelo bagunçado e a barba estrategicamente mal feita para dilacerar corações. É óbvio que o que eles conversavam era imprescindível. Incrível como algumas pessoas são naturalmente interessantes.
Fiz o maior esforço do mundo para parecer interessante também.
Lá pelas tantas, fui puxar o celular do bolso para desligar a música e seguir com os fones, como qualquer boa stalker. Tenho a péssima mania de puxá-lo pelo próprio fio e ele tem a péssima mania de ser um smartphone enorme. Não é que o celular dá uma trancadinha no bolso, eu fico só com o fone de ouvido na mão, ele acaba caíndo e, sem os fones conectados, reproduzindo em alto e bom som o que estava rolando na playlist? ONE, TWO, THREE, NOT ONLY YOU AND ME, GOT ONE EIGHTY DEGREES AND I'M CAUGHT IN BETWEEN. Porra, por que nessas horas não estava tocando um TV On The Radio ou um Massive Attack?! Fiquei TÃO constrangida com aquela Britney Spears descontrolada que acabei pisando em cima do celular. PISANDO EM CIMA DO CELULAR. Se eu já me atrapalho em situações convencionais, imagine só no susto. Ele continuou tocando, claro. Aí quando as faculdades mentais voltaram ao seu funcionamento regular, me abaixei, peguei o dumbphone, dei pause e comecei a rir. A situação durou um átimo de segundo, mas pareceu muito mais. Olhei para o lado, os três estavam me olhando e rindo também. Fiquei em dúvida se estavam rindo mais da Britney ou se de mim, pisando naquele celular como quem mata uma barata. Acendi outro cigarro e saí dali, ainda rindo, mas evitando perder a compostura. Bem feito.

Moral da História¹: Sempre aja com calma e tranquilidade, raciocine bem antes de fazer as coisas e as faça uma de cada vez.
Moral da História²: Só ouça Britney Spears trancado sozinho em um quartinho escuro, frio e úmido.
Moral da História³: Não compre um Nokia E63. Ele quer foder você.

terça-feira, 17 de maio de 2011

just a gal and her will to survive

Agora eu dei pra caminhar. Bom, antes que eu faça uma piada auto-depreciativa de significado torpe e ignóbil com fins pejorativos, vamos ao causo.
Como toda boa gordinha, vez que outra, quando vamos entrar no banho e sorrateiramente nos olhamos no espelho ou vamos experimentar outfits diante o próprio reflexo, bate a deprê. A deprê de ver toda aquela carga excedente, desnecessária. Aí lembramos da sobremesa repetida e do exagero na cervejinha de sexta. Da blusa apertada e do zíper da cintura-alta que não fecha mais. Foi aí que a geração saúde me pegou. Diminuí os cigarros, as cervejas e as noitadas. "Essa tua vida promíscua", como disse minha sempre exagerada mãe. Comecei a caminhar. Dia sim, dia não. E, gente, é todo um mundo à parte...
Tudo começou no provador da Renner. O espelho anguloso me fez ver pneuzinhos que eu nem sabia da existência. Saí de lá sem querer comprar nada, "tôô gooorda, não mereço roooupas", balbuciava em minha mente. Na saída do provador, dei de cara com a sessão de roupas esportivas - esse capitalismo sabe organizar uma loja, hein? - e, logo, avistei um shortinho bafento de corrida. Comprei. Comprei e saí anunciando pra deus e o mundo "É hoje! É hoje que eu vou correr até morrer!". Saí da Renner e caía uma MANGA D'ÁGUA no centro. Nada de novo, chove em Porto Alegre, como já diria o sábio Nei Van Sória. Quando a gente acha que vai ser magra, linda e atlética, vem a vida e gonga.
O shortinho ficou parado uns dias no armário, até o começo da semana passada, em que me bateu o espírito run, forrest, run! e eu saí correndo. Botei o shortinho, o tênis nike (... e fuzil! racionais? não, só eu? ouk então), a camiseta do FestFoto, um moletom preto e a bolsinha peruana - flautas baixinhas ao fundo - para carregar apenas as chaves de casa e o vale-transporte, caso a gordinha morresse no meio do caminho. Caminhando e cantando e seguindo a canção percebi várias coisas que compõe o ato de caminhar:

(1) Guilty pleasures musicais. Daddy Yankee, Britney, Pitbull, todos os tipos de proibidão existentes e algumas (poucas!) coisas legais como Scissor Sisters ou Garotos Podres. Músicas que pilham, que dá pra caminhar no mesmo ritmo. E o melhor de tudo é isso, não é aquele constrangimento de estar ouvindo no ônibus com medo de que o passageiro ao lado consiga ouvir também. Mão na perna, mão no seio, agora mão na xoxota E DAÍ? TÔ ME EXERCITANDO, EU OUÇO O QUE EU QUISER!
(2) Tu ficas invisível com roupa de esporte. Sério, juro. Acho até que dá pra roubar um banco com um abrigo da adidas. Ouço cada absurdo quando tô de meia calça e sainha andando na Venâncio, por exemplo. Mas, quando tô com o tal shortinho que, convenhamos, é muito mais piriguete que a meia-calça, ninguém olha. Acho que quem tá evidentemente se exercitando, com a roupa e o ritmo para tal, acaba sendo automaticamente integrado à paisagem urbana pelo expectador.
(3) O código secreto entre as pessoas com roupa de ginástica. Costumo caminhar mais no fim do dia, horário em que muitos estão caminhando na rua ou indo/voltando da academia. Há toda uma cumplicidade entre aqueles tênis feios e as garrafinhas de água. Em locais próprios de caminhada, como a orla do Guaíba ou o C.E.T.E nem tanto, mas percebi que na calçada as pessoas se sorriem e dão um leve aceno com a cabeça, como quem diz "isso aí, keep walking!". Aderi. Adoro ser simpática à toa.
(4) O negócio das endorfinas é tudo verdade, gente. Lá pelas tantas tu tás numa pilha, mas numa pilha, que começa a rolar Eye Of The Tiger no fundo e tu PRECISAS sair correndo e, dependendo dos psicotrópicos em que costumas estar trabalhado, dar socos no ar. Se parar, acaba cansando, as pernas dóem, mas mantendo um ritmo, deve dar pra ir até o Alegrete numa nice. Poderia dizer "só não me perguntes onde fica!", mas seria uma piada despretenciosamente ruim.

Enfim, indico. E, pra quem vem com a desculpa ruim de "ah, mas eu não gosto de caminhar sem um objetivo mimimi", bota R$2,70 (lê-se "pilas") no bolso, pega um ônibus que vá para Alvorada (spoiler: se já moras em Alvorada, o truque não funcionará) e tenha como objetivo voltar pra casa.

terça-feira, 19 de abril de 2011

gentileza gera gentileza, parte dois

Se tem algo que não canso de repetir, é como eu nos acho engraçados. Quando digo nós, digo da maneira mais genérica possível assim, nós, meliantes seres humanos desse mundão azul. Somos pedaços de carne que trupicam na calçada e se trancam fora do apartamento sem querer. Batem a cabeça na prateleira aérea e fecham o dedo no porta-malas do carro. Erramos diariamente, e me pergunto onde, e quando, realmente erramos. Fazemos essa idéia de que os extraterrestres são seres mega evoluídos a nos observar através de máquinas ultra sofisticadas porque, de alguma forma, sabemos que erramos, sabemos que ficamos para trás. Temos esse inconsciente de que se há algo além, esse algo com certeza não deixa o celular cair na vaso sanitário.
Quando observo meu gato emitir barulhos estranhíssimos e se jogar contra as paredes do corredor, me pergunto se foi eu quem errou ou se essa já era uma informação que contava na predisposição genética dele. Acredito, prefiro acreditar!, que já somos pré-programados para certas coisas. Porém, também somos extremamente maleáveis.
Esses tempos, trabalhei na monitoria de um festival de fotografia. Durante este festival, para uma oficina, seria necessário um aparelho de data-show. Fiquei sabendo disso uma hora antes da tal oficina acontecer. Beleza, fui conferir no local onde nos emprestaram uma sala se não poderiam nos emprestar um data-show também. Qual não foi a minha surpresa quando, ao questionar se haveria a disponibilidade, a moça que trabalha no estabelecimento gentilmente perdeu o controle de si. Disse que era uma irresponsabilidade, um descaso, um desacato, uma afronta, um horror, um abuso, um absurdo, e, por que não?, um crime hediondo eu estar requerindo aquilo àquela hora. Ele teria que ser solicitado com um mínimo de 24 horas de antecedência. Sem mais. Ouk, algumas dessas coisas eu inventei, mas é só porque não lembro ao certo o que ela disse e, também, porque curto ilustrar bem os causos com palavras.
Enfim, o fato foi que a mulher perdeu as estribeiras por muito pouco. Eu ali, no auge da minha boa vontade, ainda fazendo a digestão e também meio de cara por ter sido informada só naquele instante de que seria necessário um data-show, resolvi fazer o que faço de melhor. Fiz alôka. Ensaiei a melhor cara de "segura e amarra teu tchan aí" e discursei, com muita candura, sobre como ela estava certa, sobre como eu estava errada e sobre como, se disponível estivesse, eu poderia ter acesso ao data-show por apenas algumas horas, mostrando perfeito conhecimento das burocracias e regras que estaria violentamente burlando. Foi como se eu estivesse ofertando lírios originários dos mais suaves campos do hemisfério norte à ela. Mudou completamente de tom. Foi gentil, se desculpou, falou algo sobre não ter almoçado direito e me conseguiu o tal do artefato projetor de imagens.
Silvia 1 x 0 Vida.
Nessas horas, percebo como pode ser fácil contornar nossas predisposições. Nosso jeito atrapalhado de ser apenas delata a nosso favor. Temos mil defeitos, mas, ainda assim, vivemos muito bem, obrigada. Claro que sempre tem os loucos por essência, e não por esporte (como disse um amigo certa vez), mas essas fatalidades acontecem. A maioria das pessoas se faz, não faz de propósito, faz porque erra e errar é humano. Gentileza gera gentileza e estupidez gera treta, temos que saber elaborar bem nossas opções e a vida terá uma tendência maior à tranquilidade.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Coppola: u r doing it wrong.

Aviso aos navegantes que o post contém spoilers do último filme da Coppola. Segue o baile.
Semana passada recomeçaram as aulas na faculdade. Enquanto rumava à cadeira de Psicologia da Percepção, eis que tenho, nas escadas do segundo andar, uma aula prática de Psicologia da Percepção.
Há algumas semanas fui ao cinema com uma amiga assistir ao filme Somewhere. Nada de novo, chovia em Porto Alegre, mas a sala do Guion estava bastante cheia. Lá, encontramos nosso professor de algumas cadeiras de desenho na faculdade, que acabou assistindo ao filme conosco. Gosto muito dele, é um dos professores que realmente fez alguma diferença na minha vida, desses que acabamos levando como exemplo para sempre.
O filme trata basicamente sobre um astro de hollywood que vive entre álcool, cigarros, mulheres e despirocadas, até a chegada da filha de onze anos que vai passar uma temporada com ele. O filme, como todos os filmes da Coppola, não tem nada de muito clímax ou enredo elaborado, é sensibilidade e o não-dito que acabam nos prendendo. O marcante do filme são seu começo e seu fim: durante todo o filme ele está dirigindo uma ferrari. No começo, aparece ele dando voltas em círculos, como se estivesse desorientado. No final, ele anda em linha reta, com firmeza, até descer do carro e seguir o caminho à pé.
Ao sairmos do cinema, cumprimos o velho ritual do "eaí, o que cês acharam?". Meu professor fez um comentário que, na hora, pensei "nossa, mas que análise crítica da vivência do homem pós-moderno e sua coerência com o caos cotidiano e o cosmos e o paralelo 30 e talz". Ele avaliou que, ao sair da Ferrari, no fim, ele estaria acordando do sonho em que ele vivia. Eu entendi que o sonho ao que ele se referiu seria a vida de sonho que o cara levava, cheio da grana e das mulheres. Eu estava enganada.
Voltando ao dia em que eu teria aula de Psicologia da Percepção, enquanto subia as escadas com essa minha amiga que havia ido ao cinema comigo, nosso professor nos aborda. Ele estava conversando com outra pessoa, mas virou bruscamente ao nos ver, nos pegou pelos ombros e disse, abismado:
- Gurias, nossa! Eu estou ficando velho! Eu entendi completamente errado o filme! Eu vi outro filme aquele dia, não o mesmo que vocês!
- ... Oi? - dissemos, em uníssono.
- Sim, eu entendi que, na verdade, o cara era um fodido, ele não tinha dinheiro, nem nada. Que aquela ferrari era um sonho dele e, sempre que ele entrava nela, ele vivia aquele mundo de ilusões! Aí esses dias fui ler uma resenha do filme e entendi que, na verdade, o cara realmente dirigia uma ferrari, era rico e astro de Hollywood. Nossa, sério, o meu filme foi muito melhor do que o de vocês! Acho que vou ligar pra Coppola e dizer que ela fez tudo errado...
Eu ri alto. Sério, achei aquilo genial. Genial. Incrível como a percepção de cada um pode ser completamente diferente. Os três vimos o mesmíssimo filme, porém, com a "bagagem cultural" que cada um carrega, as interpretações podem ser várias. Tanto percepções com pequenas diferenças, como as que eu e minha amiga tivemos, quanto com enormes diferenças, como as que o meu professor teve. O ser humano é um bicho muito engraçado mesmo...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Olhe aqui, Mr. Buster

Vinícius de Moraes

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood,
Um poço de petróleo trabalhando de dia, para lhe dar dinheiro e, de noite, para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da Coréia
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotoelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Solitária

Quando fiz 15 anos, ganhei um solitário lindo que era da minha avó. De ouro, com uma pedra maravilhosa. Acredito que ela o tenha ganho quando tinha essa idade também. Por coincidência, é exatamente do tamanho do meu dedo. Nunca o uso, com medo de perder. Hoje resolvi usar. Estava de jeans e havaianas, achei que daria o tom do high-low. Botei no dedo anelar da mão direita, já que o da mão esquerda possui cadeira cativa para o anel de coruja.
Estava na Renner, um pequeno caos se formava na fila. Quando chegou minha vez, uma efusiva e hiper maquiada mocinha me atendeu, oi, boa tarde! Qual a forma de pagamento?. Cartão Renner, como sempre, em 4 vezes sem o seguro. Não, não quero concorrer a 3 mil reais, obrigada. Foi no manuseio da carteira que ela percebeu o anel. Não sei se estava na TPM, se estava grávida, se havia casado há pouco, mas o anel mexeu com os sentimentos dela. Nossa, que lindo teu anel de noivado!. Hahahaha! Eu, noiva! Não disse nada, apenas ri por dentro. Agradeci, não ia ficar me explicando pra mocinha. Agradeci e emendei: É, bonito, né, meu noivo é muito romântico, sabe, ele sabe que eu adoro solitários, ia me dar algo mais convencional como um anel comum, mas preferiu escolher uma pedra para me agradar, ele me pediu em noivado há pouco, acho que vamos casar ainda na metade do ano, são tantos os preparativos, nossa!
Não tinha porque ficar dando explicação, né?

domingo, 9 de janeiro de 2011

TX II - Attack of the Silvia

Não pretendia continuar nesse assunto, mas aconteceu algo que vale a pena dividir. Como os taxistas citados aqui no post anterior não têm como se defender, farei a Escola Silvia de Auto-Trollagem e tornarei público o recente ocorrido.
Abre parêntesis.
Tem um quadrinho do Quino em que o Filipe se apaixona pela professora, por ela ser muito bonita. Ciumenta, Susanita diz que ele é um bobo, pois A GENTE SE DIVIDE EM LINDOS POR FORA, apontando para o ar, E LINDOS POR DENTRO!, apontando para si mesma. Acompanhando a cena, Miguelito acrescenta bueno, também existimos os lindos dupla-face. Isso me fez pensar bastante, existem os que são e existem os que aparentam ser. E existem os dois. Eu tenho um ar assim, meio de idiota, e cada vez comprovo mais ser uma idiota dupla-face.
Fecha parêntesis.
Eram 2h e pouco, um átimo de bom senso me fez sair da Fuck Rehab e ir pra casa, pois tinha que trabalhar no dia seguinte e o whisky com guaraná já flertava carinhosamente comigo. Peguei um táxi na frente do Porão mesmo, dei as coordenadas e abri a janela. Segue o diálogo:
- Pô, saíndo cedo da festa, hein!
- Pois é.
- Tá ruim?
- Não, tá ótima, mas eu tenho que trabalhar amanhã cedo.
- Ah, é? E tu trabalhas no que?
- Eu sou designer. E tu?
- ... Eu sou taxista.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

TX

Já vinha pensando neste post há tempos, mas como nunca achei que os casos isolados rendessem boas histórias, hoje resolvi fazer um apanhado. Não serão todas, serão algumas, senão fica cansativo. Talvez vire uma série no blog, talvez não. Enfim.
Eu atrair gente estranha é um fato irrefutável, ouk. Mas o que as pessoas talvez não saibam é que o meu imã pra gente estranha é tão, mas tão forte, que atrai até carros. De uns anos pra cá, a medida que meu salário foi dando uma melhorada, descobri a maravilha que é o mundo dos táxis. Como não nasci com a parte do cérebro responsável por aprender a dirigir, foi a solução para uma série de problemas como atrasos, dias chuvosos e madrugadas boladonas. O lance é que eu sempre dou pé frio com taxista. Quer dizer, meu imã faz com que eles venham até mim, parem, brotem nas ruas, lotem o ponto aqui perto de casa. Nunca consigo pegar um taxista normal. Normal, desses que ficam quietos durante o trajeto e, no máximo, falam do clima e esses papos de elevador. Não. Taxista, comigo, tem que ou não bater muito bem, ou estar trabalhado nos psicotrópicos.

Causo 1 - O da Mulher-Taxista
Já não é muito comum uma mulher dirigindo táxi, mas aí, claro, a minha não poderia parar por aí. Era quase 2h, saía de uma festinha no apartamento de uns amigos que haviam recém se mudado para a cidade-baixa. Caminhei até a frente do Opinião e peguei o táxi ali na esquina. Tenho o costume de sentar do lado do motorista, dificilmente sento atrás. Sei lá, acho mais prático. Entrei, sentei, afivelei o cinto, "oi, boa noite". "Oi, amada! Vamos pra onde?". Dei as coordenadas, disse por onde achava melhor que ela fosse, e seguimos viagem. Ela estava desligando o celular quando entrei no carro, aí não perdeu a chance de me contar que falava com a filha mais velha, que só dava incomodação, que queria levar gente para a casa dela e ela não queria zueira de madrugada na casa enquanto estivesse fora trabalhando e tudo mais. "Ahã, pois é", me limitei. Contou mais algumas coisas da vida, dos filhos, do trânsito, apenas concordei. Chegamos no portão do meu prédio, a rua deserta, as luzes apagadas. Enquanto pegava o dinheiro na carteira, ela rapidamente soltou "Eu me chamo Isabel, e tu, qual o teu nome?". "Silvia", respondi. "Silvia?! Então peraí que eu tenho uma coisa pra ti...". Virou para o lado e começou a mexer numa bolsa preta que estava entre a perna dela e a porta. "MEUDEUS, ESSA MULHER VAI ME MATAR!", pensei, tentando puxar o pino da porta automática. O pino não subia, começou a me bater um pavor, eu conseguia ver ela puxando uma arma ou uma faca daquela bolsa, "uma coisa pra ti"! Só pode ser a morte! E eu, justo eu, que pensava em tantas maneiras bacanas e dramáticas de morrer, ia morrer ali naquele táxi! Não! Nããããooooo! "Ó". Ela me estendeu um chaveiro. Eu estava evidentemente apavorada, meio que defendi o rosto com as mãos, aí vi aquele chaveiro na mão dela. "Quê!?". Peguei o chaveiro. Era um daqueles de quadradinhos de metal empilhados, com letrinhas. Estava escrito "Silvia", em letras coloridas. "Eu ganhei esse chaveiro há um tempo e sempre carrego na bolsa, sabia que um dia ia dar carona para uma Silvia", disse, sorrindo. Eu comecei a rir, a rir de nervosa. "Sééério?", eu disse, rindo muito. Agradeci, passei a mão na perna pra conferir se eu não havia me mijado, paguei e ela ainda me deu um cartão, "porque nós mulheres temos que nos cuidar nessas madrugadas, né? só ligar, sempre trabalho nesse horário!". Nunca liguei, mas tenho o chaveiro até hoje. E ah, posso falar que ter visto a vida em flashes não foi tão interessante assim como dizem por aí.

Causo 2 - O do fã de Britney Spears
Esse aconteceu ontem, voltando do Barra. Fui no cinema com uma amiga e, na saída, como já estava meio tarde e o shopping é relativamente perto de casa, me dei ao luxo de pegar um táxi. Entrei, era um cara normal, de seus trinta anos. Expliquei o caminho, seguimos viagem. Não pude deixar de notar que, no rádio, estava rolando "Womanizer" a milhão. Wo-womanizer, you're a wo-womanizer, baby! you, you-you aaare, you, you-you aaare. Não soube bem se era o movimento do carro ou se era o cara, mas ele se mexia bastante naquele banco. Quando na sequência engatou um "Circus", boa travesti que sou, me dei conta: não era rádio, era um CD. Aliás, era o próprio Circus, que ficou evidente com "Out From Under". Estávamos quase chegando quando esbocei um sorriso com aquele taxista, que de pintosa não tinha nada, ouvindo Circus lindamente no carro. Ele percebeu, e disparou "Eu gosto muito da Britney, não sei como tem gente que não gosta! Numa corrida já pediram pra eu tirar, acredita? Tu gosta, né? Mulher sempre gosta!". Meu gaydar não apitou, e meu gaydar raramente falha. Quis pedir o cartão, mas fiquei com vergonha, faltou a oportunidade. Imagine só, um hétero, taxista e fã de Britney. Tá aí algo que não se vê todo dia...

Causo 3 - O Marcello Mastroianni
Esse é clássico. Já peguei táxi com ele umas 5 vezes, é do ponto ali na frente da Ritter. Sempre, repito, sempre que vou pegar táxi, ele está com um saco desses pardos, cheio de coxinhas de galinha fritas. Ele não fala, ele só mastiga. Concorda, discorda e cobra. É bizarro. Chamo ele, na minha cabeça, claro, de Marcello Mastroianni, porque sempre que o vejo com aquelas coxinhas e aquele leve tom de desespero, lembro de A Comilança, do Ferreri. E Marcello Mastroianni é o único nome de ator que lembro. Na terceira vez, nem precisei mais indicar o caminho, ele já sabia onde eu morava, o que dá um certo medo. O volante e a marcha são brilhantes de tanta gordura, e o fato de estar dirigindo não o impede de continuar mandando as coxinhas. Por incrível que pareça, não é tão gordo quanto deveria ser. Esses dias fui pegar táxi com outro e ele estava ali no ponto, era o de trás. Vi que mexia em algo no painel, e identifiquei um GPS. Pobre GPS.